October 13, 2009

Os japoneses não vêem estrelas...

Na minha faculdade, cada estudante é obrigado a fazer um certo número de créditos em matérias que não sejam da sua própria área, então este semestre eu decidi fazer uma matéria sobre História da Arte Ocidental. Numa dessas aulas o professor comparava a arte oriental e a ocidental em alguns aspectos que eu nunca tinha pensado antes.

Há um detalhe que diferencia muito as pinturas japonesas das ocidentais e que, apesar de ser um detalhe, pode-se inferir muito sobre a concepção de mundo de ambas culturas a partir deste detalhe. As pinturas japonesas nunca representam um elemento que pode parecer óbvio para qualquer um: as estrelas (e em menor escala, a lua e o sol). Não sei se vocês conhecem pinturas tradicionais japonesas, então ponho aqui alguns exemplos de pintores famosos.

Tawaraya Sotatsu, séc XVII

Yosa Buson, séc XVIII

Hokusai, séc XVIII/XIX

Como vocês podem ver, os pintores japoneses quase nunca pintam o céu. Em geral é uma espécie de nuvem dourada, uma massa etérea e esfumaçada, que serve apenas para preencher espaço. Em parte isso se deve ao fato de que as pinturas japonesas parecem valorizar apenas o tema principal, sem se preocuparem com a paisagem de fundo. Mas por outro lado, segundo dizem alguns especialistas, é um sinal de que os japoneses "não viam as estrelas". Não que não as enxergassem, mas que não davam valor a elas, talvez pelo fato de serem comuns demais, parte do dia-a-dia, elementos que "não mereciam" aparecer na pintura. É mais ou menos como os insetos ou animais pequenos para a pintura ocidental: eu não consigo pensar em nenhuma obra de arte ocidental famosa que tenha gafanhotos ou sapos, mas há muitos quadros japoneses que os representam.

Segundo esse professor de que falava no começo, uma outra explicação para isso é que os ocidentais aprenderam a valorizar as estrelas por causa do cristianismo. Para os cristãos as estrelas recordam a Encarnação. Quando lemos o Novo Testamento, vemos que uma estrela foi o sinal que os (reis) magos tiveram para encontrar o local onde tinha nascido o Messias. De fato, a pintura ocidental, que durante séculos desenvolveu-se sob o manto do cristianismo, tinha como temática recorrente o nascimento de Jesus Cristo: para os cristãos a estrela permaneceu como símbolo da vinda do Messias e daí a importância delas.

Parece que a primeira vez que a estrela de Belém foi representada numa pintura e como uma estrela cadente foi com Giotto no século XIV. Diz-se que o próprio Giotto presenciou a passagem do cometa Halley e a partir disso usou a imagem do cometa para representar a estrela de Belém (ver cometa laranja na imagem abaixo), já que os Evangelhos dizem que a estrela se movia. Até hoje a tradição de representar a estrela como uma espécie de cometa continua: basta pensar nas inúmeras representações de presépios na época do Natal.

Adorazione dei magi (de Giotto, séc XIV)

Ou seja, para os ocidentais elementos como estrelas, lua e sol eram mais que simples corpos celestes, porque eram símbolos da presença de Deus entre os homens. Além disso, para os ocidentais tudo -na condição de criatura de Deus- tinha um valor em si porque eram provas do Seu poder criador. E isso não acontece somente com as estrelas: pedras, água, pombas, fogo... e centenas de outros elementos "sem maior importância" e que outros povos nunca representavam tinham um significado a mais para os ocidentais e por isso são elementos recorrentes na pintura ocidental.

É uma prova de que a concepção de mundo influencia diretamente as expressões culturais (entre elas a manifestação artística) de cada povo e que, portanto, o nível de desenvolvimento cultural de cada povo mostra também a profundidade do elemento religioso daquela sociedade.


3 comments:

  1. não conhecia essa história do Giotto! mas faz bastante sentido.
    thiago

    ReplyDelete
  2. Interessante...
    Mesmo porque, o Céu ocidental é tido como o céu, um 'estado transcendente', solto da terra, onde nos encontraremos com Deus. E o céu oriental - perdoe-me e corrija-me se estiver errado - é uma evolução, muito mais presa à terra, ainda que haja uma tentativa de transcender, mas com parâmetros mais terrenos, sem um encontro definitivo com Deus.
    ... tudo a ver ou nada a ver???

    ReplyDelete
  3. -Bruno:
    Acho que sim... Acho que o conceito de Céu deve influenciar bastante também. Há alguns dias estava conversando justamente sobre isso: como na visão xintoísta (uma religião japonesa, baseada no animismo), as montanhas têm deuses, o mar tem seu deus etc. Ou seja, a própria visão de Deus é uma coisa bem arraigada ao mundo terreno, sem o "estado transcendente" de que você falava... Talvez o fato de os cristãos associarem o céu (físico) com o Céu (Paraíso) tenha feito com que os ocidentais se fixassem muito mais no céu físico que os orientais...

    ReplyDelete